quinta-feira, 23 de setembro de 2010

23 de Setembro: Dia do Orgulho Bissexual!

Hoje, 23 de setembro, é o Dia do Orgulho Bissexual. Ou, tecnicamente, é o Celebrate Bissexuality Day (Dia de Celebração da Bissexualidade), já que é com esse nome que ele foi criado em 1999 por Wendy Curry, Michael Page, e Gigi Raven Wilbur, três ativistas da BiNet, uma rede norte-americana de bissexuais. Por isso, resolvi escrever um pouco sobre este assunto, já que bissexuais ainda sofrem muito preconceito, tanto de hetero como de homossexuais.

 Porque ter um dia de Orgulho Bissexual?

Porque bissexuais enfrentam, além da homofobia gerada por relacionarem-se, ou sentirem-se atraíd@s por, pessas do mesmo sexo, preconceitos específicos ligados à bissexualidade que partem tanto de hetero como de homossexuais. A comunidade bissexual cunhou o termo ''bifobia'' para designar a aversão, medo, ou ódio dirigido a bissexuais ou à bissexualidade. Eu costumo brincar que existem dois tipos de bifóbicos: os que não acreditam na bissexualidade, e os que não acreditam nas pessoas bissexuais. Como assim? Os primeiros são os que negam nossa identidade e existência. Os segundos são os que sabem que a bissexualidade existe, mas têm uma visão distorcida a respeito dela, ignorando o que as pessoas bissexuais têm a dizer sobre si mesmas, e achando que sabem tudo sobre como um bissexual age, pensa e se sente.
Como bem diz a Dani Furtado, fundadora do Bi-Sides, em artigo desta semana para o Arte de Amar, do Ceará, ''Imagine que alguém te diga um dia que você não gosta do que diz que gosta, que você não é o que diz que é, que você não sente o que diz que sente. Bizarro, não é? Como uma pessoa fora de você pode afirmar o que se passa dentro de você?'' No entanto, é com esta realidade que bissexuais têm que lidar todos os dias: pessoas que acham que sabem mais sobre nós, sobre nossos sentimentos e nossos desejos, do que nós mesm@s. 

Em geral, estas pessoas não têm motivos para descrer da bissexualidade, exceto pelo fato de que elas ''não entendem'' como alguém pode se sentir atraído por mais de um sexo. Ao fazer isso, elas cometem o grande erro do qual nascem todos os preconceitos, inclusive a homofobia: presumem que a forma como ELAS vivenciam as coisas, a forma como ELAS vêem o mundo, é a única válida, é a única importante, é a única que merece ser respeitada e valorizada. Afinal, se ELAS sentem-se atraídas por apenas um sexo, é óbvio que TODAS as pessoas também se sentem. Estas pessoas agem como se elas fossem o parâmetro para todas as coisas, ignorando que todas as pessoas são diferentes entre si, e que o simples fato de algo não ser atraente para ela não significa que não possa ser atraente para outras pessoas.

Algumas frases comuns que vc vai ouvir quando conversando com alguém assim:

''Bissexualidade é só uma fase''

Quem diz isso geralmente complementa com algo do tipo ''Eu também me dizia bi quando comecei a sair do armário'' ou ''Conheço uma pessoa que se dizia bi antes de se assumir gay/lésbica''.

Novamente: a experiência daquela pessoa, ou das pessoas ''ex-bissexuais'' que ela conhece não é o padrão pelo qual TODO MUNDO passa. Existem algumas explicações para o fato de que alguns homossexuais se definam primeiro como bissexuais. 

Um deles é uma idéia errônea de que existe menos preconceito contra a bissexualidade, o que realmente muitas vezes é verdade em relação ás mulheres bi, mas por razões bem infelizes, das quais eu vou falar daqui a pouco. Para quem ainda está saindo do armário, pode parecer mais fácil se identificar com uma minoria que a pessoa acha que sofre menos preconceito. Conforme ela percebe que se dizer bissexual não protege ninguém do preconceito e também conforme se sente mais confiante para se assumir como verdadeiramente é, a pessoa abandona este rótulo. 


Outra coisa que os que dizem que bissexualidade é ''uma fase'' deveriam ter em mente é que alguns destes ''ex-bi'' CONTINUAM sendo bissexuais...mas a bifobia foi tão grande que preferiram entrar em outro armário, desta vez se dizendo gays ou lésbicas para evitar o preconceito bifóbico. 


''Nunca conheci ninguém que gostasse de homem e de mulher do mesmo jeito''

Existe um mito de que bissexuais gostam de forma EXATAMENTE IGUAL dos ''dois sexos''. Essa definição já começa errada, pois ao falar em ''homem e mulher'', ignora que a identidade de gênero das pessoas não é tão preto-no-branco. Uma pessoa bissexual, assim como alguém que se define como homo ou heterossexual, pode sentir-se ou não atraída por travestis, transexuais, transgêneros, pessoas que se recusam a deixar-se definir como homem ou mulher, enfim, por qualquer variante dentro deste complexo e fascinante arco-íris que é a humanidade. É por isto que o grupo inglês Bissexual Index  prefere definir bissexualidade como ''atração por mais de um gênero''.  

Mas o principal problema de querer definir bissexualidade como uma atração EXATAMENTE IGUAL por homens e mulheres é que simplesmente não é realista. Toda pessoa tem preferências, não importa sua orientação sexual. Seria ridículo dizer que uma mulher lésbica gosta de TODOS os tipos de mulher exatamente do mesmo jeito, não importando se são altas, baixas, ''ladies'', bofinhos, mais velhas, mais novas, pagodeiras, góticas, punk, emo. Idem para homens gays, e homens e mulheres heterossexuais. ''Homem'' e ''mulher'' são duas categorias extremamente amplas de pessoas. De que homem e que mulher estamos falando? Eu prefiro japonesas magrinhas a homens bombados, mas prefiro homens cabeludos a mulheres muito altas. E isso em si já é uma definição tremendamente simplista, pq na real eu prefiro pessoas interessantes a pessoas não-interessantes, e acho que esse é o critério de 99% da humanidade. Ser bissexual significa que o sexo de uma pessoa não é um fator determinante na hora de escolher um parceiro ou parceira. Significa sentir atração física e/ou romântica por pessoas de mais de um sexo. Apenas isso. Muitos testes já foram feitos tentando provar que bissexualidade não existe,e eles fogem a qualquer critério científico pq: a) medem somente excitação sexual b) presumem que excitação sexual É atração, quando é apenas uma parcela do que nos faz nos sentir atraídos por outra pessoa c) presumem que um ''verdadeiro'' bissexual terá a mesmíssima excitação ao ver cenas de sexo ''hetero'' e ''homo''sexuais d) presumem que todas as pessoas se excitam com pornografia. Na década de 90, um estudo sobre o qual se fez grande alarde supostamente ''provou'' que a bissexualidade masculina não existia. O método? Pegar homens bissexuais, colocar em seus pênis um aparelho que media o grau de ereção, colocá-los pra assistir vídeos de homens transando com mulheres, homens transando com homens, e mulheres transando com mulheres. A brilhante conclusão do estudo? ''Homens bissexuais não existem pq os membros do estudo ficam mais excitados vendo sexo entre homens.'' Um dos ''pequenos'' probleminhas com isso é que qse metade dos participantes foi dispensada pq não demonstrou NENHUMA ereção (o que não deve ser muito difícil de explicar considerando que não deve ser muito excitante ver pornô com fios ligados ao seu ''melhor amigo'' enquanto um bando de cientistas mede a sua reação) Pela definição dos pesquisadores, estes homens devem todos ser assexuais.  

O que me deixa mais perplexa é ver as pessoas usando EXEMPLOS DE BISSEXUALIDADE PARA NEGAR A BISSEXUALIDADE. Por exemplo, esta asneira do Pedrosa, psicólogo que escreve pra revista A Capa, e vive fazendo o desserviço de negar a bissexualidade. Nela, ele diz que  ''Nos relatos dos homens bissexuais fica sempre evidente a sua inclinação para uma das duas orientações sexuais básicas: ou a homossexualidade ou a heterossexualidade.'' Oras...se existe uma ''inclinação'' para um dois lados, é mais do que óbvio que isso acontece pois a pessoa tem atração por MAIS DE UM SEXO. Dizer que alguém não é ''bissexual de verdade'' pq a pessoa ''gosta mais'' de homens do que de mulheres, por exemplo, é absolutamente contraditório, pois quem gosta MAIS de homens do que de mulheres, gosta de homens E de mulheres, sendo portanto bissexual. 

Esse tipo de confusão deriva de uma idéia errada do que a bissexualidade é. Muitos sabem que bissexualidade existe, mas não acreditam nos bissexuais. Ou seja, ignoram o que pessoas bissexuais têm a dizer sobre elas mesmas, mantendo sua visão distorcida de bissexualidade, baseada em pré-conceitos. Estas pessoas acreditam que

''Bissexual é quem namora, ou transa, com homens e mulheres ao mesmo tempo''

Essa idéia pode tanto alimentar a idéia de que bissexualidade não existe ou é muito rara, pois não se vê muitos casais de três pessoas por aí, ou a idéia de que ela existe, e bissexuais são pessoas promíscuas, imorais (o que já traz outro grande preconceito embutido: ter relacionamento aberto/práticas sexuais ''diferentes'' significa que alguém é imoral?!), ou que necessariamente têm relacionamentos abertos, porque:

''Bissexuais só estão felizes se estão com um homem E uma mulher''

Vocês vão me desculpar, mas eu vou ser melosa: a beleza do amor é que a pessoa que você ama é perfeita aos seus olhos, e vc não quer mais ninguém no mundo a não ser ela. Existe um mito de que, por gostar de mais de um sexo, uma pessoa bissexual sempre vai ''sentir falta'' de alguma coisa se estiver se relacionando com uma pessoa só. Isso ignora o fato de que, ao entrar em uma relação monogâmica, qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual, está teoricamente abrindo mão de todas as outras pessoas interessantes no mundo. A beleza disso é que, enquanto vc está apaixonad@, aquelas outras pessoas não fazem falta, pois vc já encontrou tudo o que queria em alguém. Dizer que uma pessoa bissexual vai achar que aquela pessoa que a faz rir, que a entende como ninguém, que tá sempre tentando fazê-la feliz, simplesmente não  a completa pq tá faltando um tipo de genitália, ou tá sobrando ou faltando seios...é nos chamar de criaturas tremendamente fúteis. Mas muit@s por aí pensam isso, e se recusam sair com bissexuais porque

''Bissexuais vão te trair por alguém de sexo diferente do seu''

Do mito de que bissexuais são infelizes estando em relações com apenas um sexo, vem o mito de que, pra ''compensar'', uma pessoa bissexual sempre vai pular a cerca. Se for um homem bi namorando uma mulher, ele vai sair escondido com outros homens; se for um homem bi com outro homem, ele vai pegar o primeiro rabo-de-saia que aparecer quando o parceiro não estiver por perto. Eu ontem li algo muitíssimo interessante na seção de comentários em um artigo do jornal inglês The Guardian sobre o Dia de Orgulho Bi quando uma das pessoas comentando perguntou a uma bissexual se nós tínhamos ''casamentos verdadeiros''. A resposta da moça foi perfeita, dizendo algo do tipo ''Se você acha que hetero e homossexuais são capazes de fidelidade a seus parceiros, não insulte bissexuais achando que nós não temos essa capacidade. Não nos insulte dizendo que bissexuais são incapazes de toda a gama de emoções e comportamentos humanos, que existem certas características (como a fidelidade ou o auto-controle) que nós simplesmente não temos a capacidade de sentir.''

Existem bissexuais que ''sentem falta'' de estar com pessoas de sexo diferente do sexo d@ parceir@? Sim, claro que devem existir, afinal todo ser humano é diferente. Mas, se o acordo é de que não vamos nos relacionar com outras pessoas, pq nós seríamos incapazes de respeitar isso? Dizer que as chances de ser traíd@ por uma pessoa bissexual são maiores é um insulto a tod@s nós que somos fiéis a noss@s parceir@s. Dizer que o nosso acordo de fidelidade é algo tão frágil que pode ser quebrado simplesmente pela oferta de gente com um corpo diferente do corpo d@ noss@ parceir@ é menosprezar o nosso amor, o nosso respeito, a nossa dedicação ao nosso relacionamento. Mas é claro que muita gente pensa isso, afinal

''Bissexuais pegam o que vêem pela frente''

Por alguma razão, a maioria das pessoas (principalmente heterossexuais) tendem a achar que bissexuais, principalmente mulheres, são pessoas sem critério na escolha de parceir@s sexuais, do tipo que ''topam qualquer negócio''. Duvida? Você, mulher, marque ''bissexual'' como orientação sexual no Orkut ou, principalmente, na rede social Tagged, e veja o número de pessoas que vc NUNCA.VIU.MAIS.GORDAS que sentem-se à vontade pra te mandar msgs ''sensuais'' (só na cabeça deles, pobres infelizes). Por alguma razão, se vc gosta de mais de um sexo, isso é sinal de que vc gosta de qualquer coisa que se mexa. Isso vem em grande parte da idéia de que a orientação sexual ''certa'' é a heterossexualidade. Se uma pessoa, além de gostar do sexo oposto, também se sente atraída pelo mesmo sexo, então isso não é visto como uma orientação sexual válida, e sim como uma ''tara'' em uma pessoa heterossexual...do tipo ''Viu como fulana é galinha? Até mulher ela pega.'' Acontece que sentir atração por mais de um sexo quer dizer apenas isso: que sexo não é um fator determinante na hora de ficar com alguém. Ponto. Só pq SEXO não é um fator determinante, não quer dizer que um zilhão de outras coisas não serão usadas como critério de escolha... critérios que variam de pessoa pra pessoa, e não tem nada a ver com orientação sexual. Eu, por exemplo, corro de qualquer um que leia Paulo Coelho, independente do que a pessoa tem entre as pernas.

Apagamento bissexual: o que é, e que males causa

O termo ''apagamento bissexual'' foi cunhado pela comunidade bissexual para designar a tendência de ''ignorar, remover, falsear, ou reexplicar evidências de bissexualidade na História, no meio acadêmico, na mídia, e em outras fontes de informação.'' O apagamento bissexual é aquilo que faz com que a Ana Carolina continue sendo identificada como lésbica, apesar de ter aparecido na capa de uma revista nacional com a chamada ''SOU BI, E DAÍ?'' É o que faz com que a contribuição de Brenda Howard, ativista bissexual e criadora da primeira Parada do Orgulho LGBT do mundo, nos EUA, seja ignorada. É o que faz com que os ativistas norte-americanos ignorem o fato de que o vice-presidente da primeira associação homossexual americana, fundada em 1934, era bissexual e casado com uma mulher. É o que fez a mídia referir-se à ativista bissexual Robyn Ochis como lésbica NO DIA DE SEU CASAMENTO COM UM HOMEM.É o que faz com que se fale no Oscar Wilde como gay, mesmo tendo sido ele casado com uma mulher. Aliás, muitas figuras históricas são identificadas como homossexuais, mesmo tendo vivido relacionamentos com pessoas do sexo oposto.

Aliás, preste atenção em reportagens sobre comportamento ''homossexual'' em animais. Na imensa maioria dos casos, tais animais apresentam um comportamento que na verdade é bissexual, mas que acaba descrito com termos como ''homossexualidade ocasional'' 

Este apagamento tem motivos diferentes dependendo do sexo da pessoa bissexual. Quando é uma mulher, em geral ela é identificada como heterossexual. Se seu envolvimento com mulheres foi meramente físico, ele vai ser enxergado como uma ''experimentação'', uma fase de ''rebeldia'' ou simplesmente uma ''diversão''. Isso nasce da crença de que sexo de verdade só existe com a presença de um pênis, de que toda mulher quer um homem, e se a mulher fica com outra mulher, é por falta de um homem que ''faça o trabalho direito''. Daqui a pouco isso passa, e ela vai voltar a ficar com homens, afinal nenhuma mulher pode ser melhor que um homem.

Já quando se trata de um homem bissexual, ele é identificado como gay. Porque a nossa sociedade machista faz marcação cerrada sobre os homens para que provem sua virilidade o tempo todo. Encostou em outro homem com fins sexuais? Admitiu que se sente atraído por outro cara? Admitiu que tem sentimentos mais fortes por outro homem? Então se conforme, querido, pq um gigante rótulo de ''GAY'' será colado em vc imediatamente. Homens hetero fazem isso como uma forma de defesa. Se eles admitirem, ainda que para si mesmos, que existem homens que se sentem atraídos por homens E por mulheres, eles terão que examinar possíveis indícios de bissexualidade em si mesmos. E na nossa sociedade machista e homofóbica, isso é assustador, independentemente destes indícios existirem ou não. Afinal, o garoto hetero cresce ouvindo que gostar de outros homens é errado, e se reconfortando no fato de que ele gosta é de mulher. Lidar com a idéia de que gostar de mulher não é um impedimento automático para gostar de homens pode ser tão desconfortável que é mais fácil acreditar que o homem que se identifica como bi na verdade está mentindo pra si mesmo.

Um grave problema disso é que

O apagamento bissexual alimenta a idéia de que existem ''ex-gays'' e ''ex-lésbicas''

As pessoas se acostumaram a fazer presunções sobre a orientação sexual alheia com base na realidade presente que vêem: um homem que namora um homem é gay, um que namora uma mulher é hetero. A bissexualidade sequer é cogitada, ela nao existe no inconsciente coletivo. E aí, quando a pessoa que elas presumiram ser homo ou hetero se envolve em uma relação de outro tipo, a impressão que fica é a de que houve uma mudança repentina de orientação sexual.

Se bissexualidade não existe, então é claro que aquela garota que namorou uma garota e agora está com um homem fez isso porque só se dizia lésbica por não ter encontrado o homem certo ainda. Se ninguém é bissexual de verdade, o rapaz que saía com homens e agora está namorando uma mulher é ''ex-gay''. Eles demonstram que homossexuais podem, sim, mudar sua orientação sexual, podem se envolver em relações satisfatórias com pessoas do sexo oposto, basta que encontrem a pessoa certa, basta que tentem o suficiente.
 
Isso também funciona ao contrário. Se a fulana, que era perfeitamente feliz com um homem, ''de repente'' começou a sair com mulheres, isso foi culpa da ''modinha bissexual'', é culpa da televisão, da internet, é culpa desse ''lobby homossexual'' que fica tentando ''converter'' as pessoas pra homossexualidade.
 
''Você não existe'' é um insulto gigante.
 
Só quem é bissexual sabe o quanto é EXAUSTIVO ter que defender sua existência o tempo todo. Sabe o que é ter que lidar com pessoas que cotidianamente dizem que sabem mais sobre nós do que nós mesm@s. Quando alguém diz para uma pessoa bissexual que ela ''só está confusa'', que ela está ''mentindo pra si mesma'', que ela na verdade é hetero, ou gay, ou lésbica, que ela só se diz bi pq isso está ''na moda'', o que ela está realmente dizendo é ''Você não é uma pessoa confiável para interpretar os seus próprios sentimentos, emoções e experiências. Senta aqui que EU vou te explicar o que é que você REALMENTE está sentindo.''
 
Poucas coisas são tão insultantes quanto ter a nossa própria existência ignorada. É ser chamado de mentiros@ por tabela. Da próxima vez que você conversar com uma pessoa bissexual, lembre-se que ninguém sabe mais sobre os sentimentos dela do que ela mesma.







  








Vídeo Mulheres que Amam Mulheres!

Aí embaixo o vídeo com depoimentos de e sobre mulheres que amam mulheres, feito pelo grupo E-Litoral, com muita garra, suor e com todos os recursos tecnológicos que o Windows Movie Maker pode nos oferecer...rrss. Sim, nós sabemos que existe um erro na 2ª pergunta (deveria ser ''Você já sofreu preconceito?'') e que a 2ª frase da Janaína saiu cortada na pergunta a respeito de quem sofre mais preconceito, lésbicas ou gays. Isso vai ser corrigido e, se tudo der certo, amanhã mesmo. Só estou postando aqui na versão ''original'' porque já estou pondo o vídeo no ar com um atraso de 03 dias, e não queria atrasar mais.

Só quem fez sabe o trabalho que deu, o pouco tempo que nós tivemos, e as dificuldades que enfrentamos para encontrar mulheres dispostas a falar. Sabemos que não vamos aparecer em um Curta Santos, mas se demos voz a algumas mulheres para se expressar e contar suas histórias, já estamos muito contentes.

video





quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Comemoração da Visibilidade Lésbica em Santos: música, massagem e oficina de sexo seguro

Dia 17/09 rola a comemoração atrasada do Dia da Visibilidade Lésbica (comemorado todo 29 de agosto) promovido pelo setor de prevenção/SPREDIN da COCERT, com o apoio dos Programas Municipais e ONGS LGBT da Costa da Mata Atlântica. O E-Litoral vai participar com um vídeo com depoimentos sobre o amor entre mulheres.
 

Quando: Dia 17/09, sexta-feira, das 15:30 às 20:00

Onde:
CTA da Rua Silva Jardim, 94, Santos - Vila Mathias.

O que vai rolar:

Palestra “Deficiência e Homossexualidade” - Beto Volpi, fundador 
da ONG Hipupiara (30 minutos)
 
“Prevenção e Sexo entre Meninas” - Irina Bacci, Movimento LGBT 
 (1h)
“Oficina de Sexo mais Seguro entre Mulheres” Maria de Fátima 
Francisco Lopo, ONG/LOBAS (1h30)

Exibição de vídeo feito pelo E-Litoral com depoimentos sobre 
mulheres que amam mulheres
 
Das 16:00 às 20:00:
Haverá uma barraca para exposição conjunta de material educativo 
(PM de DST/Aids/Hepatites e ONG da Costa da Mata Atlântica)

Voz e violão com a cantora Roseli Padron

Exposição de artesanato
  
Massagem
 
Pra quem quiser esticar ali por perto, no mesmo dia rola show 
da banda  Medida Provisória, autores de uma versão lésbica mais 
do que irreverente do Rock das Aranha, do Raul Seixas:  
 
http://www.youtube.com/watch?v=yj0SjXcOsYM
 
 
 
O quê: Banda Medida Provisória tocando o melhor da MPB, 
rock e soul 

Onde: Bar Nossa Casa (antigo Café Academia Piano Bar), 
tb na Silva Jardim, nº 197.

Quanto: R$ 10,00 consumíveis

Quando: 17/09, a partir das 22:00   
 
Maiores informações: 13 3229-8799 (Rose, Rita e Miguel)
  

domingo, 11 de julho de 2010

A VEJA e a hipocrisia em relação aos jovens LGBT

Quando eu li no blog dele o post do Deco Ribeiro, fundador do E-Jovem: http://decoribeiro.blogspot.com/2010/05/veja-mente.html  sobre a matéria de capa da VEJA da primeira semana do mês de maio (tema: ''Ser Jovem e Gay - A Vida Sem Dramas'') já vi que não vinha coisa boa pela frente. No post, ele falava sobre como a reportagem da VEJA fez parecer que não existe problema algum na vida do jovem gay...nada de homofobia na escola, nada de tensão na família, um verdadeiro mar de rosas onde ninguém sofre por ser minoria. Ou seja..bem diferente da realidade que a gente sabe que existe. Comprei a revista pra poder criticar e, a princípio, achei que a coisa não era tão ruim assim. O editorial é a respeito da matéria e faz questão de dizer que ''A reportagem mostra que se revelar homossexual para os pais ainda é algo tenso, complexo e sofrido para um jovem.'' O primeiro parágrafo da matéria discorre sobre a dificuldade de assumir a homossexualidade para os pais, e ressalta que, embora a geração atual seja mais tolerante, a orientação sexual ainda vai ser uma questão geradora de tensão por um bom tempo. ''Ok'', pensei, ''não erraram tão feio. A matéria está mostrando que a homofobia diminuiu, o que é verdade. Não esconde que existem dificuldades, só quis enfatizar que é bem mais fácil ser gay hoje do que antigamente. No saldo final, resultado positivo.'' ´Triste engano da minha parte. Quanto mais eu lia, mais tinha a impressão de que os repórteres não conseguiram interpretar a própria pesquisa. Comecei a escrever um post sobre o assunto, mas era tanta coisa pra dizer que eu sempre o salvava pra editar depois, e acabei abandonando o assunto depois que o mês de maio acabou, por achar que não era mais relevante. Mas ele é sim, pois mostra o quanto a mídia manipula informação, principalmente em ano de eleição...e isso é algo para o qual todos nós devemos ficar atentos. Por quê? Eu explico. Me acompanhem, que a viagem vai ser longa e desagradável.

Comecemos pela frase que encerra a primeira página: O peso de sair do armário já não existe para os jovens gays do Ocidente: tornou-se natural. Quem afirma é o psicólogo americano Ritch Savin-Williams, autor do livro The New Gay Teenager (O Novo Adolescente Gay). Repitam comigo: Hein?! Diz a VEJA que ele está à frente do ''maior levantamento já feito'' a respeito do processo de assumir a homossexualidade. Queria saber onde foi que ele fez esse levantamento. No mundo em que eu convivo é que não foi. Qualquer um que lida com juventude LGBT sabe que sair do armário é um processo tenso pra todo mundo, demorado para muitos, e praticamente impossível para alguns.  Então, sinto muito, Sr. Ritch Savin-Williams, mas seu ''maior levantamento já feito'' precisa de algumas retificações.

A frase imediatamente seguinte também é de doer: Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem, que em nenhum instante cogitaram esconder o nome ou o rosto, são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) - muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua. Ai, meu saquinho inexistente! É tanta coisa errada nessa frase que vamos ter que ir por partes, que nem o Jack. Em primeiro lugar: será que sequer passou pela cabeça dos repórteres que, se esses jovens não cogitaram esconder o nome ou o rosto, existem muitos outros por aí que vão ter vergonha até de comprar a revista na banca? Em segundo lugar, da última vez que eu chequei, as baladas GLS iam bem, obrigado, por alguns motivos. Um deles é que o fato de existir baladas diferentes pra hetero e pra gay não é, por si mesmo, sinal de preconceito. É o mesmo princípio de existir baladas diferentes pra adolescentes e pra gente na faixa dos 30. A avançada Zurique, na Suíça, um lugar com menos habitantes que Santos, tem 05 points GLS (isso aí, CINCO!), e não é por falta de tolerância com a população LGBT. Na balada GLS, tem-se a certeza de que o bonitão da mesa ao lado também gosta da fruta. O que, num país homofóbico como o Brasil, conserva os dentes: evita o soco na cara que algumas vezes se segue á cantada em um cara hetero ou, pior, gay mal-resolvido. Também evita as piadinhas, xingamentos, e risco de agressão física que muitas vezes acompanham a demonstração de carinho entre duas pessoas do mesmo sexo. Não me lembro se foi a JUNIOR ou a DOM que recentemente fez uma matéria em que casais gays iam a points hetero ver qual era a recepção a dois homens demonstrando afeto em público. Em um lugar, o clima era tão pesado que o repórter e seu acompanhante resolveram ficar perto dos seguranças da casa, caso o pior acontecesse. Ato contínuo, os seguranças se afastam dos dois! Pois é...tivesse algum ''macho'' cheio de testosterona mal direcionada agredido fisicamente os dois, talvez eles estivessem por conta própria. Isso aconteceu no mesmo lugar em que o garçom propositadamente derrubou cerveja no casal, e em que os olhares, chacotas e ''esbarrões'' foram tantos que eles acharam melhor abandonar o lugar por medo de apanhar. Balada GLS, no Brasil, é questão de necessidade...serve pra proteger a integridade física.

Em terceiro lugar, e mais importante: chegamos no ponto principal da reportagem. Em vários momentos, a VEJA faz questão de dizer que o jovem gay não se interessa pela militância. Por um lado, isso é sim verdade. E aí eu pergunto: quantos jovens brasileiros se interessam por militância, independente da orientação sexual? Aliás...quantos brasileiros se interessam por militância, independente de idade? A maioria dos jovens prefere paquerar, ir à balada, ou à praia, do que participar mais ativamente na luta por seus direitos. E nem dá pra culpá-los: uma cultura de corrupção e de descaso das autoridades públicas deixou o brasileiro com a idéia de que não adianta lutar, nada vai mudar, muito menos quando a questão tem a ver com política. Mas tem outro lado que a VEJA não viu: é difícil lutar contra a homofobia quando a homofobia nos deixa com medo. Qual jovem vai participar de uma ONG em defesa da diversidade sexual quando tem medo que os pais descubram sua homossexualidade? Qual jovem vai participar de uma passeata exigindo respeito aos gays e lésbicas se tem pavor de que algum conhecido a veja, e questione sua orientação sexual? E será que o jovem realmente não vê ''a causa'' como sua? Eu acho que reunir mais de 50 jovens todo mes no Encontro Estadual do E-Jovem, alguns dos quais estão na rodoviária 06 e pouco da matina pra encarar mais de 03 horas de busão pra estar lá, seria mais difícil se todo jovem gay e lésbica estivesse realmente pouco ligando pra transformar a realidade á sua volta. Por mais que os encontros sejam divertidos, e que volta e meia de um encontro surja uma ficada ou até mesmo um namoro, eles envolvem conversas sérias sobre homofobia na escola, aceitação da família, políticas públicas, enfim...penso que, se aqueles jovens não estivessem nem aí pra tentar encontrar soluções que tornem a vida deles e a de jovens como eles um pouco menos afetada pela homofobia, eles achariam outra forma de passar seu domingo. .E, quando se fala de militância que nao envolve necessariamente se filiar a uma ONG, ou participar de atos públicos como passeatas, dá pra ver que os jovens vêem sim a luta contra a homofobia como uma causa sua. A internet foi fundamental em dar voz a quem antes não era ouvido, e muitos jovens aproveitaram o espaço para fazer seus vídeos contra a homofobia e publicá-los no Youtube...e outros aproveitaram para divulgar tais vídeos em seus blogs e orkuts. Outros preferem usar blogs, orkut e twitters para falar do cotidiano LGBT. E quem disse que aí não existe militância? Quem disse que, quando um jovem faz questão de publicar em seu Orkut sua foto na Parada do Orgulho LGBT, ele não o faz pq quer demonstrar que, apesar do preconceito, tem orgulho de ser quem é? Já tive a oportunidade de ver diversos tópicos em que jovens gays pedem conselho, seja no Orkut, seja no E-Kut, a rede social do E-Jovem: www.e-jovem.ning.com Costumam ser tópicos recheados de respostas. Por que?

O que mais me incomoda nisso tudo é que a equipe de reportagem entrou em contato com o E-Jovem. O Deco fez questão de dizer que a realidade bonitinha retratada no tal livro The New Gay Teenager não era exata, era diferente do cotidiano. Foi ignorado. Uma das repórteres iniciou uma enquete no E-Kut, a rede social do E-Jovem: http://e-jovem.ning.com/forum/topics/quando-vc-se-assumiu buscando justamente material para a reportagem. Nele, ela pergunta com que idade @ jovem se assumiu para a família, para algum amigo, e para a sociedade em geral. Basta ler a primeira e a segunda paginas para ver que a maioria de quem responde ainda não se assumiu, ou se assumiu pra apenas uma ou duas pessoas. Alguns fizeram questão de dar seus motivos, o medo da reação da família, da intolerância religiosa, etc. Pelo resultado final da matéria, dá pra ver que foram ignorados. A parte mais triste é que um dos meninos participantes chega a perguntar à repórter se ela não gostaria de incluir na reportagem o contraponto, mostrar justamente o lado de quem tem medo de sair do armário, se ofereceu pra contar a ela a história dele. Ignorado, claro.

O que você quer dizer para o seu pai nesse Dia dos Pais?

E dia 08 de agosto é Dia dos Pais. E o E-Litoral quer saber: o que você quer dizer para o seu pai? Mande um e-mail, poste um comentário, faça um vídeo, com aquilo que vc diria para o seu pai se pudesse (ou vai dizer de verdade, através do nosso site). A intenção é recolher mensagens através do site e de visitas pessoais a locais de convivência da juventude LGBT, para a edição de um vídeo de mensagens de jovens gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais para seus pais. Dê sua contribuição!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quem quer jogar vôlei contra a homofobia?

Quem aí tá dentro? Os times são de 07 pessoas, e podem ser mistos (homens e mulheres no mesmo time), e podem se inscrever pessoas dos 14 aos 29 anos. Já temos 03 interessados, agora só faltam 04. O torneio rola em Piracicaba, em 27/07/10, um domingo. Estamos tentando, junto ás Secretarias de Esporte da região, transporte para o evento. Caso não seja possível, organizaremos um torneio nosso por aqui mesmo. Inscrições até dia 09/07 nos e-mails grupoelitoral@gmail.com, jefreylidel@hotmail.com (Natasha), ou rodrigo_elitoral@hotmail.com. Coloquem no título Inscrição, pra facilitar a nossa vida. Vambora, moços e moças atlétic@s?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Porque a Parada deste ano foi uma vitória histórica

Dos 03 milhões de participantes da 14ª edição da Parada do Orgulho LGBT, que ocupou a Avenida Paulista no último domingo, dia 06 de junho de 2010, muitos podem não ter se dado conta, mas participavam de um momento histórico. O motivo já é perceptível na frase anterior. A Parada ocupou a Avenida Paulista. Não entendeu? Eu explico.

Em 2009, a 13ª edição da Parada foi marcada por tristes atos de violência homofóbica. Um deles foi a morte de Marcelo Campos, gravemente espancado em plena luz do dia por um grupo de covardes assassinos. O outro veio em forma de uma bomba caseira atirada da janela de um apartamento, que feriu mais de dez pessoas com seus estilhaços. O ato foi a definição de terrorismo: o uso do medo como instrumento político ou ideológico. Os planejadores? Um grupo de doze pessoas, dois adolescentes e dez adultos (estes últimos todos já com prisão decretada) A intenção? Assustar os futuros participantes da Parada, para que tivessem medo de ocupar as ruas. Foi um ato de intimidação calculada, que pretendia atingir muito mais do que aqueles que eventualmente fossem feridos. Quis instilar o temor em todos os que pensassem em estar naquele espaço no ano seguinte, ousando exigir respeito por sua afetividade, sua sexualidade, sua identidade de gênero. Quis expulsar a Parada da Paulista.

Quase conseguiu. Rapidamente, políticos, personalidades, cidadãos comuns, alguns bem-intencionados, outros aproveitando a oportunidade para manifestar uma homofobia mal velada, começaram o coro para que a manifestação abandonasse a Avenida Paulista em favor de outras vias. O motivo? A Parada havia se tornado ''muito perigosa''. E, em lugar de tomar medidas para aumentar a segurança do evento, qual era a saída? Colocar a população LGBT em algum lugar onde fosse menos visível, onde o percurso fosse mais restrito, onde houvesse uma concentração menor de pessoas. Chegou-se a falar em transferir a passeata para o Sambódromo, sem entender que o principal objetivo de qualquer Parada LGBT é percorrer as ruas da cidade, mostrando para a população que lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, drag queens, fazem parte da população de sua cidade e de seu país...é mostrar que essas pessoas têm orgulho do que são, e não tem medo de ocupar as ruas demonstrando esse orgulho...é dar a tod@s aquel@s que ainda se escondem em armários uma chance de ver outr@s travestis, homo, bi e transexuais, que assumem sua identidade, e são felizes dessa forma...é dar a tod@s nós que muitas vezes nos sentimos excluíd@s em nossa própria cidade, em nosso próprio país, em nossas próprias ruas, uma chance de, ao menos por um dia, demonstrar carinho e afetividade sem medo de represálias, dar a tod@s os transgenêros a chance de, ao menos por um dia, desfilarem seus corpos modificados, suas roupas femininas, sua maquiagem impecável sem medo de agressões.

Tirar a Parada da Paulista passaria uma mensagem perigosíssima: a de que a violência funciona...a de que a agressão, a intimidação, a ameaça, são armas eficazes contra a diversidade...a de que bombas são capazes de calar aqueles que lutam simplesmente pelo direito de serem respeitados pelo que são.

Mas 2010 chegou, e com ele, uma ocupação da Paulista que, como em todos os anos com exceção do fatídico 2009, trouxe menos ocorrências policiais do que a média ocorrida em qualquer grande partida de futebol. 2010 chegou, e com ele, o compromisso do Estado e, principalmente, do movimento LGBT, de não se render a terroristas. 2010 chegou, e com ele, mais de 03 milhões de pessoas para, reunidas, mandar a mensagem de que não há bomba que cale a nossa voz.